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sábado, 2 de fevereiro de 2019

AO FUTURO GOVERNADOR DO ACRE E EX-GOVERNADOR DO FUTURO: CONSELHOS DO TEMPO

AO FUTURO GOVERNADOR DO ACRE E EX-GOVERNADOR DO FUTURO: CONSELHOS DO TEMPO

ARTIGO - memória
AO FUTURO GOVERNADOR DO ACRE E EX-GOVERNADOR DO FUTURO: CONSELHOS DO TEMPO
O que segue foi publicado no jornal O Rio Branco em 28 de setembro de 2006. O texto foi endereçado ao governo que tomaria posse no ano seguinte - o do Binho - Uma cópia foi entregue pessoalmente, no começo de 2007, ao já empossado Presidente da Fundação de Cultura Daniel Zen. Nove anos se passaram. O ex-governador mora em Brasilia com a família. O Zen, que à época integrava uma banda pop local que não existe mais, virou politico, antes foi Secretário de Educação. O diretor de teatro citado não faz mais teatro - parece que hoje mora em Rio Branco. O grupo de teatro citado não existe mais. A última versão do Festival de Teatro do Acre quase não contou com peças locais, mormente dos municípios. O ex-governado Romildo vive a lamentar pelos cantos o que deixou de fazer. Quanto aos conselhos dados, fica a critério de cada avaliar se foram seguidos. De minha parte, vejo que os atuais políticos, suas famílias e partidos estão muito bem! Viva a cultura acreana!
AO FUTURO GOVERNADOR DO ACRE E EX-GOVERNADOR DO FUTURO: CONSELHOS DO TEMPO
João Veras*
Há alguns dias, assisti, no teatro Hélio Melo, a peça “Anjos da Noite”, do grupo de teatro “Arte é viver”, do município de Feijó. A apresentação fazia parte da programação do VIII Congresso Acreano de Teatro realizado pela Federação de Teatro do Acre-FETAC com a participação de 12 grupos de teatro de todo o Estado. Feijó tem, hoje, quase 40 mil habitantes. Foi fundado em 1906 e é o segundo maior município do Acre em extensão. Mas Feijó conta apenas com um grupo de teatro e não possui casa de espetáculo. A exemplo dos demais municípios do Estado do Acre, Feijó nunca conheceu qualquer plano de ação cultural. Aliás, nem órgão gestor, nem orçamento o poder municipal tem para a cultura.
Ao final da apresentação, o diretor da peça, Hector Magalhães, que também atua e é o autor do texto do espetáculo, agradeceu a oportunidade da apresentação em Rio Branco, sonho antigo, e falou da velha dificuldade de sempre para se fazer teatro no Acre e da resistência sua e de seu grupo no município de Feijó, essas coisas que nós de Rio Branco e dos demais municípios, que teimamos em fazer arte, muito bem conhecemos.
Visivelmente emocionado, Hector chamou ao palco seu pai, um senhor que estava justamente ao meu lado no escuro do teatro. O senhor que subiu ao palco, para surpresa dos presentes, era Romildo Magalhães. Ex-prefeito de Feijó, ex-deputado estadual e ex-governador do Estado (90/94). A cena comoveu. A plateia dividida entre sentimentos ouvia do ex-governador a declaração de que não conhecia o lado artístico do filho e do orgulho que estava sentindo naquele momento.
Não sei se o evento moveu o ex-governador a refletir sobre as suas gestões na área cultural. É possível. Eu não resisti. A propósito, sai do teatro pensando sobre o tempo e o poder. O mundo gira e não congela nada, mas marca. O que fazemos hoje pode definir, e define, nossos rumos, nossas vidas amanhã. Isto vale também para os administradores públicos que trabalham para o presente e o futuro de vidas, que administram esperanças e são eleitos e pagos para tornar o local em que vivemos e as pessoas e relações cada vez melhores, hoje e amanhã. Já ouvi de um ex-gestor cultural que o poder cega. Muitos creditam a essa cegueira a razão pela qual administradores públicos tanto falham no exercício de seu papel, na consecução de seu dever de administrar a coisa pública para o bem de todos e de acordo com as aspirações destes.
Uso aqui como referência especificamente a área cultural. Tendo em mente as “gestões públicas” nesta área nas últimas décadas. Não conheço os programas dos atuais candidatos ao governo para a cultura. Por tal motivo, resolvi, sem a pretensão da verdade e limitado à minha parca observação da nossa breve história contemporânea, elencar alguns conselhos pertinentes a uma reflexão honesta sobre a importância do poder em nossas vidas e, sobretudo, para o futuro da cultura acreana. O que faço me dirigindo ao governador que administrará o Acre de 2007 a 2010:
1 – Não censure, nem deixe que se censure. Isto é feio, ilegal, imoral e dizem que engorda.
2 – Não elimine, nem deixe que se elimine, quem pensa e se manifesta diferente. Não seja um administrador excludente.
3 – Dialogue. Mais que isso, crie canais de diálogo. Este é o verdadeiro norte para governar.
4 – Não se comporte com indiferença frente a qualquer manifestação do cidadão. Não responder a quem lhe dirige é, além de tudo, falta de educação.
5 – Possibilite a informação e a transparência. Não há razão para que não seja assim.
6 – Não deixe de participar da comunidade e também de possibilitar a participação dela.
7 – Considere e respeite o imaginário do povo. Seus sonhos, criatividades, invenções...
8 – Procure pela arte que se faz aqui. Busque saber do nosso teatro, da nossa música, do nosso cinema, das nossas artes plásticas, da nossa literatura, dos nossos sabores e sentimentos estéticos. Se não conseguir procure saber o motivo.
9 - Procure saber se há cinemas, teatros e bibliotecas nos municípios, assim como as programações dos rádios e televisões, e aproveite para imaginar o que é que as crianças, os jovens e os idosos dos municípios fazem, sobretudo, nos finais de semana. Imagine o que assistem, o que ouvem, o que lêem, o que aprendem a gostar no campo das artes. Quais os seus imaginários e suas aspirações estéticas.
10 – Se pergunte pelo mercado cultural de arte acreana e o que que o Estado pode fazer por ele.
11 – Se pergunte porque as escolas não são usadas como centros culturais, sendo naturalmente isto. Porque que elas não divulgam a cultura local, especialmente a literatura, nem estimulam a criação artística. Porque que a educação artística não é realidade.
12 – Se pergunte porque até hoje não se estabeleceu no Acre uma política pública de cultura. Porque que a imensa maioria das prefeituras não têm órgãos gestores, nem orçamentos, de políticas culturais. Porque o orçamento do Estado para a cultura é tão parco.
13 – Se pergunte porque que o Sistema Público de Comunicação do Estado ainda não conseguiu se fazer espaço das manifestações culturais acreanas, do pensamento, da reflexão e do diálogo, bem como porque que não se estimula que as empresas de comunicação façam o mesmo, e em razão disto porque que as diversas manifestações artísticas acreanas não são conhecidas de nós.

Talvez, no futuro, possamos sentar no teatro para assistir outras cenas do “Arte de viver”, com ou sem ex-governador ao lado, mas com outra qualidade de comoção. Talvez o ex-governador do futuro possa ter consciência de seu presente, orgulho do seu tempo e do que realizou, e não somente orgulho do seu filho. Talvez... Talvez...
*músico, compositor, poeta e membro titular do Conselho Estadual de Cultura

PÉRIPLOS NA AMAZÔNIA OCIDENTAL: UMA LEITURA DE A EPOPÉIA ACREANA, DE FARIAS GAMA


PÉRIPLOS NA AMAZÔNIA OCIDENTAL: UMA LEITURA DE A EPOPÉIA ACREANA, DE FARIAS GAMA

*
Profa. Dra. Luciana Marino do Nascimento
(UFAC/UFRJ)[1]

Resumo
A Revolução acreana e extrativismo da borracha se entrelaçam como grande feitos na história da Amazônia, de tal modo que motivaram uma série de escritas literárias e historiográficas acerca do Acre. Há, portanto, variadas epopeias cantadas em prosa e verso, após o longo e complexo processo de anexação do Acre ao Brasil: Epopéia Acreana (1919), de Farias Gama; O fim da epopeia (1924), de Craveiro Costa; A Epopéia do Acre (1964), de Sílvio Meira e A Epopéia acreana (1939), de Freitas Nobre. Pretende-se neste trabalho, ressaltar a importância da Epopéia Acreana, de Freitas Gama, tendo em vista ser esta a primeira obra editorada no Acre, publicada sob a forma de folheto, apresentando 6 cantos e um epílogo.

1 Introdução
Ao falarmos o campo semântico Amazônia, nossas referências tendem a conferir um grau de identidade à região no todo, o que se explica pelo longo processo histórico de estabelecimento, de criação e de “invenção da Amazônia” como processo de percepção e apropriações de imagens acerca dessa região, imagens essas imortalizadas pelos relatos dos viajantes, pela literatura e pela mídia. (GONDIM, 1994, p.9).
Dentro de um quadro de heterogeneidade, que é a Amazônia, a leitura mais profícua que se pode fazer dessa região é pela via literária. É nesse sentido, que podemos compreender os passeios literários como mapas textuais da Amazônia.

2  Epopeia Amazônica
Tradicionalmente, a Epopeia constitui um poema épico, cuja narração se dá em torno de acontecimentos históricos de grande relevância para um povo. O Epos assim como o foi na Antiguidade de Homero ou Virgilio não é passível de realização na nossa contemporaneidade, considerando que o épico de Homero foi composto para ser cantado, conforme postula Staiger (1997, p. 118) : “a poesia épica no sentido homérico não pode se repetir”. Conforme já afirmamos anteriormente, a epopéia de Homero está relacionada à oralidade, como também à sua configuração histórico-cultural, ou seja, Homero produziu sua obra levando em conta fatores necessários a sociedade da sua época, cantou os costumes e as normas vigentes em seu tempo, não podendo estes, serem aplicados à sociedade  moderna.
No que tange à questão da Revolução acreana, nota-se na historiografia oficial uma tendência para interpretar a origem desse movimento como manifestação do sentimento antiimperialista de Plácido de Castro e o patriotismo como mola propulsora, que tende a pregar o “direito de ser brasileiro em território boliviano ocupado por brasileiros.” Há todo um passado heróico criado pela historiografia, o que é reforçado pelas epopéias escritas em torno do Acre, sejam elas: O fim da epopéia (1924), de Craveiro Costa; A epopéia do Acre (1964), de Sílvio Meira e A epopéia acreana (1939), de Freitas Nobre. 
Vale ressaltar que a questão do Acre, sua demarcação e sua anexação ao Brasil, se insere num contexto internacional, pelo fato do Acre ser o possuidor de uma grande reserva de látex em seus seringais, produto este essencial, à época, para fins de fabricação de pneus. De fato, o território pertencia à Bolívia e não ao Brasil, se tomarmos por base os mais variados tratados e acordos, desde Bula Papal Intercoetera assinada em 1493, até a cartografia da linhaCunha-Gomes em 1898 (não considerando o Uti Possidetis).(RANZI, 2008, p. 45-48).
A obra A Epopéia acreana, de Farias Gama, tem como temática, a história do Acre, desde a chegada dos nordestinos à sua anexação ao Brasil. Primeira obra publicada no Acre em 1919, sob a forma de folheto de 39 páginas. O libreto representa um achado para o estudo da literatura produzida no Acre, tendo em vista ser obra pioneira, não sendo encontrada no Acre, restando apenas um exemplar na Biblioteca Pública do Amazonas. O único texto sobre A Epopéia Acreana foi publicado no Blog Alma Acreana (almaacreana.blogspot.com). Ressaltamos que não foi possível encontrar dados biográficos acerca do autor.
O poemeto, termo utilizado por Gama, apresenta um esquema único de rimas, constante ao longo do poema, sendo que o primeiro verso rima com o terceiro, o segundo com o quarto, e o quinto com o sexto. Todas as estrofes possuem seis versos. O folheto apresenta-se divido da seguinte forma: Esborço– apresentação geral, na qual o autor traça um panorama histórico da Revolução; Introdução – apresenta a narrativa da ocupação da Amazônia (VIII estrofes); Canto I – apresenta a chegada dos nordestinos no Acre (XI estrofes);Canto II – apresenta a narrativa do confronto entre brasileiros e bolivianos (XII estrofes); Canto III – narrativa acerca dos primeiros combates, a rendição dos acreanos, e depois a retomada (XIII estrofes); Canto IV – narrativa das batalhas mais ferozes e sangrentas (XIII estrofes); Canto V –  narrativa dos desdobramentos da Revolta (V estrofes); Canto VI – desfecho final da Revolução e a vitória dos acreanos (XVII estrofes); Epílogo – cita o  assassinato do líder Plácido de Castro (VII estrofes).
Refazendo todo o percurso da história do Acre em versos, com seis cantos e um epílogo,  Farias Gama, anterior ao texto poético, abre seu libretoEpopéia Acreana com o Esborço, no qual apresenta um resumo da história que vai tratar em versos:

Um dia, inimigos de minha altivez, arrojaram-me num cárcere. Foi então que resolvi mais amplamente servir-me desta faculdade, que embora mal, me acompanha desde a infância – o trovar. Rebusquei o motivo. Era a Revolta do Acre. Quis tanger a lira, mas não encontrei-a.
N.F. – Este folheto além de ser a primeira obra literária ideiada , escrita e editorada no Acre, foi acabada em 15 dias, ficando por isso cheio de graves incorreções gráficas e literárias. Desculpas. (GAMA, 1919. p. 1)[2]

Elevando a história do Acre ao caráter de uma epopeia, Farias Gama ilumina o Epos, a partir de uma sedimentação da história da conquista desse território localizado na Amazônia Ocidental. Nesse sentido, recorremos aos estudos de Bakthin sobre a epopéia. Mikhail Bakhtin em Questões de literatura e Estética, afirma ser este um gênero não pertinente ao mundo moderno e contemporâneo. Segundo Bakhtin (2002), a epopeia enquanto um gênero determinado caracteriza-se através de três traços constitutivos: em primeiro lugar, o passado nacional épico, absoluto, serve de objeto da epopeia; em segundo, a lenda nacional atua como fonte da epopeia e em terceiro, o mundo épico é isolado da contemporaneidade, isto é, do tempo de seu autor: “no mundo épico não há lugar para o inacabado, para o que não está resolvido, nem para a problemática. A conclusão absoluta e o seu caráter acabado – eis os traços essenciais do passado épico, axiológico e temporal” (BAKHTIN, 2002, p. 408). Entretanto, cabe ressaltar que o teórico russo nos aponta para a permanência e a presença do Epos na nossa contemporaneidade. Neste sentido, vê-se que o gênero épico reside na literatura palimpséstica e se mantém transformado em diversas obras com intenções épicas, nas quais o autor realiza uma pesquisa estética e histórica antes de escrever a obra. Já na introdução, Farias Gama traz para a cena escrita, a lição dos mestres da épica, inscrevendo em seu texto os mestres do passado:

Ai quem  dera, tivesse eu de Virgílio
ou do alquebrado e desdilezo Homero,
de um a graça gentil doce idílio
de outro o trovar altiloqüente e austero,
para em versos compor esta Epopeia
dos Brazilios Heroes Nova Ulisseia.
(GAMA, 1919, p.5. Introdução)

As narrativas acerca da Amazônia, a caracterizam em inúmeras obras como “inferno verde” e ao adentrar em seus territórios constituem narrativas que se assemelhasse à uma epopeia, tendo em vista que na Amazônia  se viveu uma verdadeira batalha da borracha. A epopeia Amazônia não se restringiu somente às lutas pelo extrativismo da borracha, mas merece destaque o longo e complexo processo de anexação do Acre ao Brasil, tema de A Epopéia Acreana, de Farias Gama.
 Na Amazônia se vivenciou a chegada dos nordestinos em busca do “ouro negro”, tendo em vista que nas terras onde se localiza o Acre havia imensos seringais,  de onde se podia extrair o látex. As terras de fato pertenciam à Bolívia e esta não possuía meios para explorar e colonizar essa faixa de terra e com a omissão da Bolívia, a extração da borracha era feita pelos brasileiros, entretanto, em 1899, a Bolívia arrendou as terras do Acre para oBolivian Syndicate. Farias Gama narra a épica chegada dos nordestinos ao Acre:

                                           I 
Do Ceará, do Rio Grande e muitos
estados do Nordeste brazileiros
acossados dos males mais fortuitos,
emigraram aos milhares forasteiros
que assim fujiam do torrão natal
sob o guante da seca, o grande mal.

                        II
Homens feitos em todos os rigores
da natureza ou do trabalho insano
destemidos audazes peleadores,
eil-os em quatro paus transpondo o oceano.
.....................................................................
(GAMA, 1919.p.8. canto I. I e II)

De acordo com Craveiro Costa, foi dentro de um contexto de revoltas que surgiu a figura de Plácido de Castro, como o herói movido por sentimentos patrióticos, tendo como objetivo a luta pela anexação do Acre ao Brasil. Segundo Correa, a campanha do Acre assim se realizou:
Sob a liderança de Plácido de Castro, os seringueiros brasileiros iniciam a nova  campanha de retomada do Acre ao atacar e tomar a vila de Xapuri, em 07 de agosto de  1902, para concluí-la em 24 de janeiro de 1903 com a  assinatura da carta de rendição da Bolívia após uma ofensiva no Porto do Acre. Três dias depois, em 27 de janeiro de 1903, foi novamente proclamada a República do Acre. (CORREA et al,2010, p. 25.)
 A batalha pela Acre é descrita por Farias Gama com contornos quase que exatos, pois segundo o autor, sua intenção era gravar na memória uma história grandiosa de uma luta de um povo que havia escolhido ser brasileiro: “Este o mérito: ter condensado as narrativas dolorosas e sinceras dos veteranos da Epopéia, esquecidos, abandonados, como o livro o será, dois minutos após o olhar indiferente do leitor.”
A escrita de Farias Gama se mostra portadora de uma crítica ao esquecimento daqueles veteranos que lutaram na Revolução acreana e ao alijamento do território, conforme a última estrofe do Canto VI:

Era finda a revolta. Dispersados,
como feras bravias e perseguidas
os chefes foram, por legais soldados,
em breve eram seus feitos esquecidos
que a Pátria vencedora na contenda
a terra abandonou, só vê a renda.
(GAMA, 1919. p. 20)

Resolvida a questão do Acre com a assinatura do Tratado de Petrópolis, entre Brasil e Bolívia em 17 de novembro de 1903, esteve o Barão do Rio Branco à frente das  negociações, sendo que a Bolívia entregava o território acreano ao Brasil em troca da futura construção da estrada de ferro Madeira-mamoré, para escoamento da produção, mais a quantia de dois milhões de libras esterlinas. (TOCANTINS, 2001).
O libreto representa um achado para o estudo da literatura produzida no Acre, tendo em vista ser obra pioneira, não sendo encontrado no Acre, restando apenas um exemplar na Biblioteca Pública do Amazonas. O único texto sobre A Epopéia Acreanade Farias Gama foi publicado no Blog Alma Acreana. Ressaltamos que não foi possível encontrar dados biográficos acerca do autor e o presente texto representa um esboço preliminar de um estudo e de uma reedição da obra a ser elaborada por nós.

               Figura 1. Capa da Epopeia Acreana. Primeiro livro impresso no Acre- 1919 Cópia
               Fonte: Biblioteca do Estado do Amazonas


Referências Bibliográficas

BAKTHIN, Mikhail. Questões de estética e de literatura. A teoria do romance. Trad. Aurora Fornoni Bernadini et al.  5 ed. São Paulo: Ed. UNESP, 2002

CORREA, Ana Karolina Ferreira et al. Acre: entre o fuzil e a borracha. Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010.
www.geograficas.cfh.ufsc.br. Acesso em 02 /02 /2012.

GAMA, Farias. Epopeia acreana. Rio Branco-Acre, 1919. S. n.t. Cópia digitalizada do Libreto. Biblioteca do Estado do Amazonas- Manaus- AM.

RANZI, Cleusa Maria Damo. Raízes do Acre. 3 ed. Rio Branco: EDUFAC, 2008.
TOCANTINS, Leandro. Formação histórica do Acre. Brasília: Senado Federal, 2001.
STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais da poética. 3ª ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.

Site Consultado
almaacreana.blogspot.com. Acesso em 01/02/2013.




*Este texto foi originalmente apresentado como comunicação no XII Simpósio da ABRALIC- Associação Brasileira de Literatura Comparada, no âmbito do Simpósio intitulado “Literatura, Cultura e  Identidade na/da Amazônia, por nós coordenado, juntamente com os Professores Doutores Roberto Mibielli (UFRR) e Devair Fioroti (UERR). LITERATURA, CULTURA E IDENTIDADE NA/DA AMAZÔNIA
[1] Docente do Departamento de Ciência da Literatura da UFRJ. [lotação provisória]. Docente do Programa de Pós-Graduação em Letras: Linguagem e Identidade da Universidade Federal do Acre. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq- PQ. Este trabalho foi produzido com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.
[2] Foi mantida  a grafia original da obra.

O Ocidente escolheu o pior caminho: a guerra (Leonardo Boff)

O Ocidente escolheu o pior caminho: a guerra (Leonardo Boff)

Seguramente são abomináveis e de todo rejeitáveis os atentados terroristas perpetrados no último dia 13 de novembro em Paris por grupos terroristas de extração islâmica. Tais fatos nefastos não caem do céu. Possuem uma pre-história de raiva, humilhação e desejo de vingança.           
Estudos acadêmicos feitos nos USA evidenciaram que as persistentes intervenções militares do Ocidente com sua geopolítica para a região e a fim de garantir o suprimento do sangue do sistema mundial que é o petróleo, rico no Oriente Médio, acrescido ainda pelo fato do apoio irrestrito dado pelos USA ao Estado de Israel com sua notória violência brutal contra os palestinos, constituem a principal motivação do terrorismo islâmico contra o Ocidente e contra os USA (veja a vasta literatura assinalada por Robert Barrowes: Terrorism: Ultimate Weapon of the Global Elite en seu site: War is a Crime.org).
A resposta que o Ocidente tem dado, a começar com George W. Bush, agora retomado vigorosamente por François Hollande e aliados europeus mais a Rússia e os EUA é o caminho da guerra implacável contra o terrorismo seja interno na Europa seja externo contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Mas esse é o pior dos caminhos, como criticou Edgar Morin, pois guerras não se combatem com outras guerras nem o fundamentalismo com outro fundamentalismo (o da cultura ocidental que se presume a melhor do mundo e com o direito de ser imposta a todos).       A resposta da guerra que, provavelmente, será interminável pela dificuldade de derrotar o fundamentalismo ou grupos que decidem fazer de seus próprios corpos bombas de alta destruição, insere-se ainda no velho paradigma  pré-globalização, paradigma enclausurado nos estados-nações, sem se dar conta de que a história mudou e tornou coletivo o destino da espécie humana e da vida sobre o planeta Terra. O caminho da guerra nunca trouxe paz, no máximo alguma pacificação, deixando um lastro macabro de raiva e de vontade de vindita por parte dos derrotados que nunca, na verdade, serão totalmente vencidos.
O paradigma velho respondia guerra com guerra. O novo, da fase planetária da Terra e da Humanidade, responde com o paradigma da compreensão, da hospitalidade de todos com todos, do diálogo sem barreiras, das trocas sem fronteiras, do ganha-ganha e das alianças entre todos. Caso contrário, ao generalizar as guerras cada vez mais destrutivas, poderemos pôr fim a nossa espécie ou tornar a Casa Comum inabitável.
Quem nos garante que os terroristas atuais não se apropriem de tecnologias sofisticadas e comecem a usar armas químicas e biológicas que, por exemplo,colocadas nos reservatórios de água de uma grande cidade, acabe produzindo um dizimação sem precedentes de vidas humanas? Sabemos que  estão se habilitando para montar ataques cibernéticos e telemáticos que podem afetar todo o serviço de energia de uma grande cidade, dos hospitais, das escolas, dos aeroportos e dos serviços públicos. A opção pela guerra pode levar a estes extremos, todos possíveis.
Devemos tomar a sério o que sábios nos alertaram como Eric Hobswbam ao concluir seu conhecido A era dos extremos: o breve século XX (1995:562):”O mundo corre o risco de explosão e implosão; tem que mudar...a alternativa para a mudança é a escuridão”. Ou então do eminente historiador Arnold Toynbee, depois de escrever dez tomos sobre as grandes civilizações históricas, nos vem esta advertência em seu ensaio autobiográfico Experiências (1969:422):” Vivi para ver o fim da história humana tornar-se uma possibilidade intra-histórica, capaz de ser traduzida em fato não por um ato de Deus mas do próprio homem”.
O Ocidente optou pela guerra sem trégua. Mas nunca mais terá paz e viverá cheio de medo e refém de possíveis atentados que são a vingança dos islâmicos. Oxalá não se realize o cenário descrito por Jacques Attali em seu Uma breve história do futuro (2008): guerras regionais cada vez mais destrutivas a ponto de ameaçarem a espécie humana  . Aí a humanidade, para sobreviver, pensará numa governança global com uma  hiperdemocracia planetária.
O que se impõe, assim nos parece, é o reconhecimento da existência de fato de um Estado Islâmico e em seguida formular uma coligação pluralista de nações e de meios diplomáticos e de paz para criar as condições de um diálogo para pensar  o destino comum da Terra e da Humanidade.
Receio que a arrogância típica do Ocidente, com sua visão imperial e ao se julgar em tudo melhor, não acolha esse percurso pacificador mas prefira a guerra. Então torna a ganhar significado a sentença profética de M. Heidegger, conhecida depois de sua morte:” Nur noch ein Gott kann uns retten: então somente um Deus nos poderá salvar”.
Não devemos ingenuamente esperar a intervenção divina, pois o nosso destino está entregue à nossa responsabilidade. Seremos o que decidirmos: uma espécie que preferiu se auto-exterminar a renunciar à sua vontade absurda de poder sobre todos e sobre tudo ou então forjarmos as bases para uma paz perpétua (Kant) que nos conceda viver  diferentes e unidos, na mesma Casa Comum.
* articulista do JB online e escritor

Origem do topônimo Acre e a polêmica sobre o gentílico acreano (por Eduardo de Araújo Carneiro)

Origem do topônimo Acre e a polêmica sobre o gentílico acreano (por Eduardo de Araújo Carneiro)

        Não se sabe ao certo a origem do vocábulo Acre. Até o momento, o registro mais antigo com esse nome é um documento assinado pelo Brasil e pelo Peru em 23 de outubro de 1951. No Art. 1, § 7º do Tratado de Comércio, Navegação, Limites e Extradição, consta a expressão “a margem esquerda do rio Acre ou Aquriy”. O documento revela que desde o início dos anos 1850 aquele rio já era reconhecido por meio de duas grafias ou duas imagens acústicas. O uso do termo “rio Acre” foi mais corrente entre os migrantes brasileiros, já entre os bolivianos, até a primeira metade da última década do século XIX, o mais frequente foi “rio Aquiry”.
          Acredita-se que o “Aquiry” tenha origem em uma das palavras de língua tupi “Uwákürü ou “Uakiry, faladas pelos índios apurinãs (ipurinás), e que significam “rio dos jacarés”. Ou mesmo do vocábulo “Yasi'ri” ou “Ysi'ri” que significa “água corrente, veloz”. Há quem defenda ainda que tenha surgido do léxico tupi “akyrá”, nome de uma tribo indígena que viveu na região do atual Estado do Ceará, e que significa “gordo”.
As hipóteses sobre a origem do nome “Acre” são muitas. Castelo Branco (1958, p. 4), menciona que houve quem defendesse a procedência fenícia da palavra “Acre”. Porém, a mais aceita hipótese é a de o nome tenha surgido do aportuguesamento de uma palavra indígena. Para uns, a palavra foi “a'kir ü”, de origem tupi, que significa “rio verde”; para outros, da palavra foi “Aquiry”, já mencionada. Como aconteceu tal “aportuguesamento”? Para essa pergunta também há várias respostas.
Para Castelo Branco (1958, p. 4), por exemplo, o fenômeno aconteceu no início dos anos 1870, quando os exploradores brasileiros da região puruense transformaram a palavra apurinã “uakiry” em “aquiri”, “aqri” e depois “Acre”. Ele diz que em 1871, “Labre (Antonio Rodrigues Pereira Labre) encurtara (a palavra Aquiri) para Acre, grafia esta de que ele fora o primeiro a adotar e a publicar” (idem, ibidem, p. 45). O autor chega a dizer que o “Aquiri” era o nome primitivo de “Acre” (idem, ibidem, 72).
          Também é muito conhecida a explicação de que o aportuguesamento tenha surgido através de um erro de grafia do Aquiry ou Aquiri. O fato teria acontecido em 1878, quando João Gabriel de Carvalho, o “primeiro” colonizador do rio Aquiri, escreveu ao comerciante do Pará, Visconde de Santo Elias, pedindo para que certa quantidade de mercadorias fosse destinada à "boca do rio Aquiri". O comerciante não entendendo a grafia de João Gabriel, achou que o mesmo havia escrito algo como “Acri” “Aqri” ou “Acre”. Reza a “lenda” que a partir de então, todas as mercadorias destinadas para aquela região foram com o nome “rio Acre”.
          Há quem diga que a origem do nome Acre esteja nas propagandas feitas no Ceará pelos responsáveis por arregimentar mão de obra para a extração da borracha. Para convencer os matutos, supostamente se dizia que a Amazônia era uma região rica e fértil e que lá ninguém ficaria sem um “acre de terra”.
          Muitas outras explicações ainda são possíveis, contudo, mencionaremos apenas mais uma, a de que o nome guarda relação com um porto mediterrânico conhecido como São João de Acre. Esse porto ficou notório na história por ter sido palco do mais importante conflito armado entre muçulmanos e cristãos durante as Cruzadas do século XIII, e que acabou por definir a hegemonia islâmica na Terra Santa.
          Atualmente esse “Acre” é uma pequena cidade da região norte do Estado de Israel e fica cerca de 160km de Jerusalém. Na língua hebraica, o porto é chamado de Akko. Por ter mais de quatro mil anos, é natural que a região tenha recebido outros nomes. Mas é sabido que por quase toda a Idade Média o topônimo “Akre” se tornou o mais comum, principalmente quando virou capital do Reino de Jerusalém. Judeus, árabes e cristãos de todo mundo aportaram em Belém e em Manaus antes mesmo do boom da borracha, e potencialmente, qualquer um deles poderia ter nomeado esse rio amazônico de Acre. Embora com chantes remotas, essa hipótese não pode ser descartada sem que antes se feita uma pesquisa mais séria.
          Diante de tantas indagações, podemos afirmar que o nome Acre não é um patrimônio dos primeiros acrianos, pois não foram eles que inventaram a palavra. Como falei inicialmente, há menção dessa palavra em documento oficial datado em 1851, ou seja, antes da colonização daquela região por brasileiros. Além do mais, no livreto Rio Purus (1972), escrito por Antonio Labre, já constava a palavra “rio Acre” e mo Jornal do Amazonas, em sua edição de 16 de novembro de 1876, p. 2, menciona que um vapor por nome “Acre” navegava o rio Purus. Portanto, o vocábulo “Acre” é anterior à primeira geração de acrianos. Não é impossível que o topônimo Acre tenha surgido a partir de uma palavra indígena, mas esse fenômeno linguístico, se é que aconteceu, é anterior à segunda metade do século XIX.
          A expressão “rio Aquiri ou rio Acre” continuou sendo empregada durante um bom tempo, mesmo com a hegemonia brasileira na região. Ela está no texto do Tratado de Petrópolis (1903) e no do Tratado de Limites Brasil-Peru (1909). Na década de 1960, autores como Castelo Branco (1958) ainda a usava. Tudo indica que o nome “Aquiri ou Aquiry” só desapareceu lentamente do vocabulário amazônico. Na verdade, o nome “Acre” só se tornou mais usual com a proclamação do Estado Independente do Acre por Galvez em julho de 1899. E é possível que ele tenha escolhido o nome devido ao fato daquele rio ser o mais rico em seringueiras, consequentemente, o mais populoso, o mais trafegável e o mais importante da região.
          Quando Luiz Galvez estende a significação do nome Acre para muito além das terras banhadas por aquele rio, deu-se o início de uma operação semiológica, ou seja, um acontecimento enunciativo de nomeação. Ele usa o nome Acre para identificar uma outra coisa que não era o rio que deságua à margem direito do Purus, e sim um ente político administrativo, uma pessoa jurídica de direito público. Portanto, o Acre inventado por Galvez não era o mesmo “Acre” que dava nome ao rio. São dois signos linguísticos diferentes, embora sendo homônimos, com mesmo significante e mesma “imagem acústica”.

          Quando estudamos a semântica de um acontecimento enunciativo, é preciso tratá-lo como um fenômeno singular, mesmo que sua erupção no universo discursivo esteja marcada pela interdiscursividade. Assim sendo, apesar de haver um diálogo entre a “República do Acre” e “rio Acre”, ambos são signos diferentes, designam coisas distintas, o primeiro não é a continuação do segundo, não há uma cadeia de linearidade entre eles.
          O “Acre” de Luiz Galvez era um Estado soberano que adotara a forma republicana de governo. A república pressupõe o exercício da cidadania, que pressupõe um vínculo jurídico entre o indivíduo e o Estado. Nesse caso sim, há a necessidade da invenção de um “gentílico”, que passará a identificar o cidadão com o Estado em que ele nasceu ou em que ele exerce a cidadania. Posso afirmar que foi a partir de então que o gentílico “acreano” se tornou frequente na linguagem regional.

          O gentílico, portanto, não tem 138 anos de uso como afirma a Academia Acreana de Letras, pois isso significaria dizer que o vocábulo tivesse surgido em 1878, com a primeira ofensiva colonizadora de brasileiros em terras à margem do rio Aquiri ou Acre. E mesmo que houvesse alguma referência do gentílico nesta data, coisa que não tem, dizer que ele tem 138 anos é tratar os diferentes signos homônimos como se fossem um único signo.
          O sujeito reconhecido como “acrEano” por residir às margens do rio Acre, não pode ser tratado como o mesmo sujeito que se tornou a “acrEano” por ser um cidadão de um país chamado Acre. Nesse país, no caso o Estado Independente do Acre, um sujeito poderia ser considerado “acrEano”, mesmo não residindo próximo ao rio Acre, já que a identificação territorial do nome “Acre” se tornou mais ampla, sendo possível agora um sujeito residente às margens do rio Iaco também ser chamado de acrEano. A mudança não foi apenas na extensão territorial que o nome agora passava a designar, houve também uma mudança qualitativa. O território deixava de ser uma mera localização residencial do sujeito para se tornar o espaço jurisdicional de um Estado soberano.
          A história do “acrEano” cidadão da República do Acre não é a mesma daquele sujeito que antes da República era supostamente tratado como “acrEano” tão somente por morar nas proximidades do rio Acre. Dizer que a origem de um está na sequencia evolutiva do outro é desconsiderar que ambos foram produzidos por fenômenos de subjetivação distintos. Como fenômenos singulares, cada um deve ter sua narrativa própria, pois não se trata de um mesmo “acrEano” que vem evoluindo com o tempo.
          Da mesma forma, temos um anacronismo quando se afirmar que o gentílico “acrEano”, designador do sujeito natural do Estado do Acre, unidade federativa da República do Brasil, tem origem em um tempo em que sequer esse Estado existia. Como pode? A narrativa oficial impõe a temporalidade linear e tranquilizadora do identifico, eu prefiro mostrar a tensão da dispersão temporal daquilo que é naturalmente movente e distinto por si mesmo. Não há uma cadeia de derivação enunciativa entre um e outro. O lastro histórico e continuísta que reagrupa os diferentes homônimos em uma mesma narrativa é artificialmente construído.
          Mesmo com a dissolução da República do Acre em março de 1900, os defensores da Questão do Acre continuaram empregando o gentílico, visto que era útil a causa, pois promovia a união entre as pessoas e a mobilização delas. Naquele contexto, ser acriano significava mais a ideia de não ser boliviano, do que propriamente de ser brasileiro. Isso por que, como já vimos, durante a vigência da República do Acre, ser “acrEano” também significava não ser brasileiro.



Eduardo Carneiro é professor da UFAC, escritor, historiador, economista e doutorando em Estudo Linguístico pela UNESP. Este artigo corresponde a um trecho do livro: O Discurso Fundador do Acre(ano): História e Linguística.



sábado, 30 de janeiro de 2016

A verdadeira geografia do Acre

FONTE: http://terranauas.blogspot.com.br/

A cidade mais isolada do Acre não é Santa Rosa do Purus, nem Jordão e muito menos Marechal Thaumaturgo. A cidade mais isolada do Acre é Rio Branco. Rio Branco é "ligada" com o resto do Brasil. Quer dizer, "ligada" em termos... Parece mais aquele menino buchudo que ninguém quer no time de futebol, mas fica insistindo com o nariz remelento "deixa eu jogar, vai".

Mas Rio Branco é isolada do Estado de que deveria ser a capital. Rio Branco não é a capital do Acre, é uma cidade-estado que só pode ser a capital de si mesmo. A cidade-estado de Rio Branco tem três capitais: a capital econômica fica na periferia de Porto Velho, a capital pólítica, fica na periferia de Brasília e a capital cultural fica em algum lugar entre São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, encostadinho num estúdio da Rede Globo (que horas são?).

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Parafraseando Luis F. Verísssimo, que disse que os portenhos (nativos de B.Aires) eram italianos que se achavam ingleses, a maioria dos rio-branquenses são rondonienses que se acham paulistas.

Para estes, que tiveram pouco, ou nenhum contato com a verdadeira cultura nativa do estado o Juruá, parece uma terra de conto de fadas, uma espécie de Nárnia e nós os "narnianos" somos uma espécie exótica, que talvez nem exista mais.

É a impressão que eu tenho quando alguém do governo fala sobre os investimentos na região.
E para ser justo, o governo tem lutado sim para mudar esta geografia. Não por que ele seja "bonzinho" e tenha de fato conseguido enxergar "Nárnia", mas porque o Juruá pesa cada vez mais na balança política do estado e o povo juruaense, cada vez mais bem informado, não aceita mais as migalhas da capital. E para ser justo também, quem começou a mudar esta geografia política foi, gostem ou não, Orleir Cameli. A partir de seu governo, não foi mais possível tratar o Juruá da mesma maneira que vinha sendo tratado pelos governos anteriores.

O que me enoja na capital é como parte significativa de sua sociedade, especialmente a sua pseudo elite se cerca do poder a fim de tirar uma "casquinha". É este séquito de miséráveis que fornece a "cortina de fumaça" que impede ou ao menos, dificulta que os representantes do poder instituído pelo POVO do ACRE, enxerguem a realidade.

O rei está nú e a função do primeiro círculo do poder é dizer que suas vestes são lindas. Atrás destes vêm um segundo círculo que diz "você está nú, mas se me pagares, direi que suas vestes estão lindas". As vezes tenho a impressão de que o governo instituído pelo POVO do ACRE é refém de uma sociedade corrompida e com quase nenhuma disposição para trabalhar.

Me enoja quando o empresariado da "capital", diz que prefere investir em Porto Velho do que em Cruzeiro do Sul. Mas por outro lado, me trás também alívio: não precisamos de mais safados aqui, por que já fabricamos os nossos.

É significativa a letargia e a indiferença com que a sociedade rio-branquense recebe os anúncios da conclusão da BR, da ponte sobre o rio Juruá e etc, etc e etc...

Em tese, apenas em tese, é para que a ALEAC fosse uma casa de represetantes das diferentes regiões do estado. Na prática, todos tornam-se rio-branquenses e passam a viver do gargarejo claustrofóbico do poder que impede que enchergar além de Bujari. 

...Na verdade não é o Juruá que precisa se separar do Acre, é Rio Branco que precisa abrir os olhos para o resto do estado e deixar de ser tão somente apenas, a capital de si mesma.